terça-feira, 15 de setembro de 2015

DESPORTO EM MOÇÂMEDES, ANGOLA, 1975



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D E S P O R T O


I – INTRODUÇÃO


Esta é uma nostálgica homenagem ao passado, evocando a gesta das gentes briosas que aprenderam a dialogar com o mar e com as areias finas das dunas escaldantes, recortadas pelas miragens do Namibe. 
MOÇÂMEDES notabilizou-se, no primeiro século da sua existência, não só pela beleza plástica da sua população feminina, que a caracterizava na condição de princesa do mar e rainha do deserto, mas também pelos valores atléticos que a cada dia despontavam. Por isso, era tida como o alfobre exuberante de uma saudável juventu-de, no âmbito do desporto angolano, concomitantemente glorificada pela potencialidade e acção de tantos atletas, entre os seus adolescentes. Foi através do desporto, especialmente, que o seu nome percorreu as Ter-ras mais longínquas da que foi uma região promissora, em constante desenvolvimento, de carácter e económi-co e social. É oportuno sublinhar os seguintes excertos da proclamação do ilustre Alto Comissário Norton de Matos, em Maio de 1933:

"Que a vossa principal tarefa seja o engrandecimento da Pátria. A pessoa hu-mana é o mais alto valor moral e que todas as instituições sociais devem ter por fim aperfeiçoá-la e servi-la.”

Vinte anos haviam já decorrido da data da determinação deste Alto Comissário no concernente à re-forma geral do ensino e à criação do Ensino Secundário em Angola, que abrangia a "Educação Física" (Ano de 1913).


II - ESTRUTURAS, EQUIPAMENTOS, INSTITUIÇÕES E PRECURSORES


Incentivados por tão inteligentes medidas patrióticas e de interesse geral, os Homens e as Instituições se organizaram e aperfeiçoaram a prática do desporto local, que até então se resumia no confronto salutar de grupos de bairros, na modalidade futebol, entre os quais rivalizavam com maior intensidade os representativos dos dois principais polos da cidade - Centro da Cidade e Torre do Tombo.
Entretanto, o Independente Sport Clube, da vizinha Vila de Porto Alexandre, - a ex-Angra das Aldei-as -, foi o primeiro Clube desportivo a ser fundado no Distrito, com o peculiar entusiasmo da sua generosa e tenaz população, gente que se dedicava às lides piscatórias, que no mar buscavam o seu sustento, exclusiva-mente.
Seguiu-se o popular Ginásio Clube da Torre do Tombo, fundado em 24 de Junho de 1919, por inici-ativa de:
Álvaro Ferreira,
Evaristo Fernandes,
Francisco Brito
João Duarte,
José de Sousa,
Manuel Brazão,
Maurício da Silva Brazão,
Oscar Duarte de Almeida,
Rogério Viegas Ilha.

tendo sido seu primeiro presidente Maurício da Silva Brazão.

Homens de tempera estes, assumiram imediatamente, ainda que com desmedido esforço e sacrifícios acrescidos, o objectivo de trilhar caminho firme e de solidez. Tinha como símbolo o "Dragão Flamejante" e cores azul e branca, tornando-se, mais tarde, filial do Belenenses de Portugal, dadas as suas afinidades com o mar. Foi a primeira agremiação desportiva moçamedense a adquirir sede própria, com actividades desportivas e recreativas (bailes de Carnaval, da Pinhata, Reveillons, tradicionais, com boa frequência e inexcedível entu-siasmo).
Os que lançaram à terra fértil as primeiras sementes da silenciosa mas firme perseverança, persistên-cia e do apego obstinado à iniciação do desporto legitimado, nas modalidades ajustadas às ainda precárias estruturas sociais momentâneas, viram coroadas de êxito as nobres iniciativas então em curso.
E é justo evocar as memórias de tantos que, nas primeiras décadas do Século XX, emprestaram o va-lioso interesse, esforço e dedicação, com ausência de compensações paralelas, sem o que não seria possível dar corpo às novéis instituições pertinentes, as quais deram contributo excepcional para a elevação e manu-tenção do DESPORTO MOÇAMEDENSE E ANGOLANO.
A prossecução da inspiração transmitida pelas fundações dos primeiros Clubes repercutiu-se sem es-perar noutros adeptos, do que originou a criação - em 14 de Junho de 1922 - do "Aristocrata Clube", depois "Royal Atlético Clube" e por impedimento legal do uso deste nome, denominado definitivamente "Atlético Clube de Moçâmedes", com estatuto aprovado em 14 de Julho de 1922, data oficial da fundação. Foram seus abnegados fundadores os desportistas Anastácio Gomes Coelho, António da Costa Carvalho Júnior, Celestino de Freitas, Cristiano dos Reis, Domingos Parente da Silva, Eduardo Brazão, Fernando Quartim da Assunção, Gllberto Gato, João de Jesus Falcão, Manuel Honrado, Sérgio Reinaldo Melim e Sigismundo Sampaio Nunes.
Todavia, estes auto-intitulados aristocratas foram impotentes para debelar as várias crises por que o Clube passou, devendo-se a sobrevivência do Atlético à inabalável e prolongada dedicação da alguns sócios, entre os quais se evidenciam os nomes de Arlindo Cunha, Antonio da Rocha Minas e Raul Radich Júnior. A título de curiosidade, realça-se que pelas presidências do Atlético passaram figuras de vulto, destacando-se o Dr. Torres Garcia, que foi Ministro da Agricultura e Encarregado do Governo-Geral de Angola.
O seu símbolo, uma elegante águia, e as suas cores - verde e branca - eram respeitados pelos seus fervorosos e fieis adeptos, em consequência das suas gloriosas tradições.
A sua Sede própria foi adquirida no final da década de quarenta, instalada no antigo Teatro Garrett (que na sua época foi a mais linda sala de espectáculos de Angola), transformado radicalmente no início da década de cinquenta (1950), com ginásio, rink de patinagem, que também servia para jogos de hóquei em patins, ténis ,voley e basquetebol e diversas salas para actividades recreativas e administrativas.
Na mesma altura, um grupo de funcionários da Casa Rogado Leitão quis ampliar o seu âmbito des-portivo, disponibilizando-se para fundar o "Sporting Clube Leitão", de Mocâmedes, o que aconteceu efecti-vamente em um de Julho de 1922.
A primeira direcção foi constituída por Francisco Lopes Braz (presidente), Arménio Rocha Mangeri-cão (Secretário), José Carlos de Freitas Júnior (Tesoureiro), Pedro Guilherme Parente da Silva, Henrique Sena Júnior e José Augusto Quadros (vogais). O Conselho Fiscal foi preenchido por António Parente Albuquerque e António Leite d’Oliveira.
A segunda denominação foi "Sporting Clube de Portugal", em dois de Agosto de 1922, para final-mente, em assembleia geral de 22 de Maio de 1923 ter sido dada a designação lógica de "Sporting Clube de Mocâmedes". Tornou-se na nona filial do Sporting Clube de Portugal (segunda em África), que lhe concedeu, em 1945, a medalha de "Mérito e Dedicação".
No ano seguinte, de 1946, num hercúleo esforço dos sócios, aliado ao generoso auxilio financeiro dos indus-triais de pesca do Distrito, foi dado inicio a construção do seu complexo desportivo e Sede, que enriqueceram o património da Cidade e revitalizaram o desporto moçamedense.
Entre os nomes das figuras de relevo nas direcções deste Clube, que tem por símbolo o leão e cores branca e verde às listas, há que exaltar José Carlos de Freitas, Comandante Pedro Fragoso de Matos, Arnaldo Sanches Osório e, por ultimo, João Thomaz Sena da Fonseca,,
Finalmente, com a evolução demográfica do Distrito de Mocâmedes e aproveitando-se de um pro-longado e sério desentendimento entre dirigentes e atletas da formação de honras (equipa principal) do Giná-sio Clube da Torre do Tombo, teve lugar a fundação do "Sport Lisboa e Mocâmedes", a 10 de Setembro de 1936 , posteriormente denominado "Sport Mocâmedes e Benfica", coerentemente.
A crise do Ginásio de então teve como principais protagonistas os desportistas Armando Guedes da Silva e Júlio de Andrade, jovens com a idade de vinte e três anos, os quais encabeçaram o processo de suas desvinculações daquele popular e velho Clube da Torre do Tombo.
A Comissão Organizadora para a criação do jovem Clube era constituída por Caetano José de Al-meida (o Cabo Almeida, da guarda fiscal), Júlio de Andrade, Armando Guedes da Silva, Manuel Guedes da Silva e João de Almeida.
O símbolo, como e do conhecimento universal, e consubstanciado na águia altaneira e suas cores o vermelho escarlate e o branco. Diz-se que a "ÁGUIA" representa a elevação de propósitos, o espírito de inici-ativa e a ânsia de chegar o mais alto possível.
Com a fundação do "Sport Lisboa e Mocâmedes", foram arrastados muitos dos jovens que ate então eram seguidores do velho Ginásio, com os quais constituiu uma equipa de irrefutável valor. Estranhamente, os mesmos desportistas que com a camisola azul e branca não conheciam o gosto da vitória há muito tempo, ao passarem a envergar a camisola vermelha com a águia ao peito - do Benfica - conseguiram retumbantes vitó-rias, contínuas, a primeira das quais contra o forte time do Atlético Clube de Mocâmedes, por quatro golos a um, conquistando a estimulante "Taça Inauguração".
A Sede do Benfica de Moçâmedes - filial n.º 45 do Sport Lisboa e Benfica - esteve inicial e proviso-riamente instalada numa modesta casa, nas proximidades do Ginásio, na Torre do Tombo, tendo-se transferi-do para outra, de melhores condições, no mesmo bairro (Torre do Tombo). Dada a expansão das actividades desportivas do Benfica de Mocâmedes, uma Direcção presidida por Luciano da Cruz Coque não decidiu fazer o arrendamento de Instalações mais consentâneas, junto do edifício da Câmara Municipal, com recinto de jogos, salão ré, criativo e sala de direcção,
Por motivos justificados, que se considera inoportuno revelar aqui, foi em devido tempo excluído da lista de dirigentes o senhor Caetano José de Almeida, pouco tempo depois da cessação da actividade da pri-meira Comissão Organizadora.
Muitas foram as pessoas dedicadas que o sucederam, eleitas para as ulteriores direcções, destacando-se o saudoso presidente Luciano da Cruz Coquenão, além de Armando Marques Pereira, Armando de Freitas Campos, Francisco Antunes Cunha, José de Azevedo Nascimento, Manuel Ferreira Barbosa, Pedro Coimbra Correia, José Humberto Fiúza da Silva, João Rodrigues Trindade, Renato Nunes da Silva, Sérgio Nunes da Silva, Armando Guedes da Silva, António Guedes da Silva, Eurico Martins, José de Oliveira Leitão, Digialme Berardinelli, Artur Pinho Gomes e, mais recentemente, José dos Santos César, Orlando de Sousa, José Trin-dade, Arménio Joaquim Lemos, Júlio Garcez Lencastre de Castro, Ramiro Reimão de Castro, Cristóvão Mo-rais Pequeno, Humberto dos Santos Pinho Comes, Mário António Gomes Guedes da Silva, Luís de Sousa Simão, Victor Manuel Pessanha Viegas, Alípio Pinheiro da Silva, Fernando Romero Monteiro e José Alberto Pereira Monteiro.
O senhor Victor Manuel Pessanha Viegas (Engº) que foi presidente do Clube, exerceu posterior-mente funções como governador do Distrito do Cunene.
Foi em cinco de Maio de 1957, entretanto, que se deu inicio à construção do "parque de jogos" do Clube encarnado, com capacidade para três mil espectadores, com o transporte das primeiras carradas de areia e pedra para o terreno respectivo cedido pela Câmara Municipal de Moçâmedes, transformando-se em reali-dade o sonho que os benfiquistas moçamedenses há muito acalentavam. Não é demais realçar os apoios mate-riais que o Clube recebeu, até à conclusão da obra, que dignificou o Concelho de Mocâmedes por ter passado a dispor do melhor estádio da região. Foram lançadas campanhas várias de angariação de fundos entre sócios, industriais de pesca (tradicionais patrocinadores de peso),comerciantes locais, empresários de Luanda, além de subsídios de Conselho Provincial de Educação Física, Governo do Distrito de Moçâmedes e Governo-Geral de Angola. Era governador do distrito o Dr. Vasco Nunes da Ponte e governador-geral de Angola o coronel Horácio de Sá Viana Rebelo, a quem Mocâmedes muito ficou a dever no tocante a investimentos desportivos.
Não foram apenas estes Clubes os impulsionadores do desporto no Distrito de Mocâmedes. A expan-são é devida, também, a outras Instituições, relativamente as quais não é curial olvidar o papel relevante da sua accao:0 Centro Náutico da Mocidade Portuguesa, o Clube Náutico de Mocâmedes, o Aéro Clube de Mo-câmedes, a Associação Beneficente dos Ferroviários de Mocâmedes e o Rádio Clube de Moçâmedes.
O “Centro Náutico da Mocidade Portuguesa” na prática de modalidades náuticas – vela e remo - , a partir da década de quarenta, com a supervisão de Cecílio Moreira. Os praticantes eram estudantes da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, devotados velejadores e remadores nem tanto, que alcançaram triunfos importantes em competições ao nível nacional e ate internacional, O seu equipamento resumia-se em quatro barcos de vela da classe "Sharpie 9 m." e um "Yolle" de quatro, cujo acondicionamento e conservação eram assegurados pela Capitania do Porto de Moçâmedes.
Em Angola existiam dezoito "Sharpies", distribuídos pelos seguintes Centros:

Lobito ............................. 2
Luanda ............................ 8
Moçâmedes ..................... 4
Outros pontos do litoral .. 4

A baía imponente de Moçâmedes era considerada a melhor pista de regatas de vela no território an-golano.
Ainda no que concerne à cultura de desportos náuticos, o "Clube Náutico de Moçâmedes", popular-mente conhece do por "Casino", cuja Sede estava implantada na privilegiada "Praia das Miragens", foi pre-ponderante na organização de competições várias - natação, vela, remo e saltos aquáticos -,especialmente na época balnear, de Dezembro a Maio, enquadradas nas "Festas do Mar" da cidade coincidentemente com o mês de Março.
Este modelar Clube, com frequência distinta e selecta, rivalizava, nas festividades citadinas, com o "Acro Clube de Moçâmedes", nomeadamente nos grandes bailes das passagens de ano, de ambiente elevado e de vincado brilhantismo. Esta seria emulação trazia benefícios para a cidade e para outros Clubes, que conti-nuamente procuravam Imitar e melhorar os festejos de suas iniciativas.
Independentemente desta particularidade no âmbito recreativo, o AERO CLUBE DE MOCAMEDFS mantinha escolas de pilotagem, com cursos regulares e estimulantes, dando imensos pilotos a Aviação Civil de Angola. A prática de ralis aéreos com alguma frequência dignificava a cidade mais sulina do território Angolano.
Foi seu presidente, durante largos anos, o farmacêutico João Marques Pequito.
A "ASSOCIAÇÃO BENEFICENTE DOS FERROVIÁRIOS DE MOÇÂMEDES" (FERROVIA), com Sede própria e dotada de belíssimas instalações, manteve durante algum tempo (Década de vinte) uma equipada futebol, reveladora de excepcional espirito colectivo, constituída por ferroviários.
Com a proliferação dos Clubes desportivos, a Direcção do "Ferrovia" deliberou a cessação dos seus sectores desportivos. Tornou-se instituição de utilidade publica, por resolução do Governo Geral de Angola, fazendo jus à sua acção de carácter filantrópico, abrangente.
Esta Associação manteve uma actividade recreativa dinâmica e vigorosa, tendo chegado a prestar serviços cinematográficos à população moçamedense na década de quarenta.
Cumpriu exemplarmente a sua grandiosa missão, não só desportiva e recreativa mas também no campo de assistência medica e de benemerência, conquistando um lugar honroso na historia de Moçâmedes,
Por último, o "RADIO CLUBE DF MOÇAMEDES" , fundado por entusiastas radiófilos da década de quarenta, instituição que sempre cumpriu o seu papel fundamental de impulsionador, promovendo relatos regulares dos jogos mais importantes, destacadamente de futebol, hóquei em patins e basquete, independen-temente das suas características culturais.
Até então os meios de comunicação interurbanos eram escassos ,especialmente ate à década de trinta, quando ainda não se fazia relatos desportivos por estações emissoras, com excepção do Rádio Clube de An-gola e Rádio Clube de Benguela. Quando se realizavam jogos em Sá da Bandeira, os adeptos dos Clubes protagonistas - de Moçâmedes - aglomeravam-se na gare da estação do Caminho de Ferro de Moçâmedes para, via rádio própria, conhecerem os resultados finais desses eventos desportivos e daí as manifestações vivas consentâneas, pelas ruas da cidade, quase sempre de jubilo, diga-se de passagem, dada a hegemonia moçamedense.
Quando da concretização da criação do Rádio Clube de Moçâmedes, a população de todo o Distrito, da Lucira a Baia dos Tigres, aplaudiu e louvou a iniciativa, disponibilizando-se para dar apoio às direcções futuras, na perseguição dos seus objectivos, cada vez mais ambiciosos. A alma típica de um povo passava a ter voz!
Se assim foi pensado e desejado, depressa foi achado! As suas instalações provisórias funcionaram no mesmo edifício do Sindicato dos Empregados do Comércio, na parte final da avenida da Republica, pró-ximo do "campo de futebol", mas não tardou a construção de edifício próprio, noutro local mais amplo, com evidente melhoria das instalações técnicas e constituição de uma seccão desportiva, mais dedicada ao auto-mobilismo amador, com desempenho de mérito.
Ganhou a população dispersa na vasta área do Distrito, ganhou Moçâmedes! Ganhou Angola, tam-bém!
O CR 6 RM contribuiu cabalmente para o progresso global, inclusivamente do DESPORTO, faça-se justiça dando-lhe maior projecção.


III - O CAMINHO DA EVOLUÇÃO DESPORTIVA E AMPLIAÇÃO DO LEQUE DAS MODALIDADES PRATICADAS


Repetindo expressões eruditas, MOCÂMEDES foi posto avançado da colonização portuguesa, para-digma das maiores vir turfes e expoente maior do espirito de abnegação e do sacrifício português em África.
O pequeno burgo, ex-Angra do Negro, que Pinheiro Furtado denominou Moçâmedes, em homena-gem ao então Governador de Angola, Barão de Mocâmedes, viu fundada em 1840 a primeira feitoria e o pri-meiro forte. De Pernambuco, Brasil, chegaram os primeiros colo- nos, de entre eles Bernardino de Figueiredo Abreu e Castro, seu corajoso estimulador, desembarcando da barca "Tentativa Feliz" em 4 de Agosto de 1849, comboiada pelo bergantim "Douro". Foi elevada a Vila em 26 de Março de 1855, por carta régia, seis anos apôs a fixação da primeira colónia, tendo sido elevada à categoria de Cidade, por decreto, em 4 de Setembro de 1907,com a visita do príncipe D. Luís Filipe. A precocidade revelada foi fruto do trabalho e do ingente esforço de suas gentes, de mãos calejadas e rostos queimados pelo ardente sol tropical.
Não se passou diferentemente com a evolução desportiva, de que foi uma das pioneiras no território Angolano, tendo sido cotada como dos principais centros de desenvolvimento.
A causa desportiva é, afinal, a alavanca primor dial para a formação do espirito e para o revigora-mento físico de qualquer povo. E Moçâmedes cedo empreendeu isso, trilhando paulatinamente e com segu-rança a senda do desporto, mas não desembaraçada de escolhos.
As condições naturais para a prática do desporto, em Moçâmedes, eram excelentes, desde o clima (temperaturas medias de 16 a 26º) a existência de uma baía compatível, com mar calmo, a par da vocação pessoal, voluntariedade, espírito de abnegação dos seus jovens e empenho da pequena sociedade. Contudo, os recursos materiais disponíveis, pela sua tenuidade, obrigaram a uma multiplicidade de improvisações e criati-vidade das pessoas envolventes, por forma a dar corpo â planificação dos campos de jogos, aquisição de equi-pamentos e dos acessórios imprescindíveis.


3.l. - NARRAÇÃO RESUMIDA DE FACTOS DESPORTIVOS

3.1.1.- FUTEBOL, O DESPORTO-REI


O "FUTEBOL" foi a modalidade que reuniu mais entusiásticos adeptos, iniciara o Século XX.
Existia um só campo de jogos, precário, de terra batida, localizado à frente do edifício do Caminho de Ferro. Os equipamentos eram comprados pelos próprios desportistas da época, com raras excepções, por-que todos tinham os seus empregos. Sobrepunha-se a paixão pela prática do desporto!
Ali se defrontavam os times que representavam os dois núcleos populacionais da cidade, com cres-cente rivalidade, até que, como se infere do que se fez alusão no capítulo anterior, a criação de Clubes deu lugar à implementação de mais elencos, com mais qualidade e outrossim com maior responsabilidade, incen-tivando-os admiradores e seguidores respectivos.
Mais tarde, foi construído novo recinto melhorado, com bancadas numa das laterais e balneários na parte inferior daquelas, localizado nas proximidades do anterior e, finalmente, já na década de sessenta, em consequência das exigências do "plano de urbanização" do município, foi edificado um estádio mais compatí-vel com as necessidades do Distrito, num declive do local denominado "Furnas".
Pondo em evidência, ainda, a fase inicial da prática da modalidade - futebol -, em que se destaca a consonância dos atletas com a população, alguns episódios vão ser lembrados seguidamente.
Os tripulantes dos barcos de pesca de baleias, oriundos da Noruega, que em Moçâmedes prestaram seus serviços, faziam parte de uma grande empresa norueguesa que instalou na "Praia Amélia", a seis quiló-metros a sul da cidade, uma fábrica de grandes proporções, onde durante largos anos e ate 1929 se industriali-zou a carne e a gordura dos cetáceos que a frota abatia. Esses homens noruegueses praticavam desporto e muitos deles eram exímios jogadores de futebol. Marcaram uma época, na década de vinte do Século XX. Reforçaram os times da Terra, em especial o Ginásio Clube da Torre do Tombo, que beneficiaram da boa técnica desses atletas nórdicos, dotados de experiência e dos mais avançados métodos de preparação física e táctica. Por outro lado, entregavam-se ao folguedo, com exuberância, nas noites dos sábados, distribuindo-se pelas tabernas citadinas, ébrios e truculentos. Tocadores excepcionais de concertina, cantavam, em coro, can-ções do seu país, e punham em alvoroço a pacata gente do burgo silencioso. Partiram e não voltaram. As gentes pacíficas da Terra não perderam, entretanto, as esperanças de um breve regresso. Mas em vão. Ficaram as saudades que uma abrupta partida originou. Também permaneceram as memórias desse tempo romântico, além das ossadas desses grandes animais por todo o litoral, especialmente na turística "Praia das Conchas"!
É que o futebol (Foot-ball) nasceu na Europa, na Inglaterra, no século XIX, tendo sido levado para Portugal em 1888, ano em que o português Guilherme Pinto Basto terá adquirido naquele país a primeira bola utilizada no primeiro jogo realizado em território português, precisamente em Cascais, nos jardins da Parada, junto ao Museu do Mar, o berço do futebol nacional. Só duas dezenas de anos após, aproximadamente, a prática do futebol se estendeu às Colónias portuguesas.
Nas décadas de trinta e quarenta já era reconhecido nos principais centros de futebol, em Angola, o talento dos atletas moçamedenses, razão pelo qual resultava a sua contratação - definitiva ou mesmo para determinados torneios importantes avulsos, - especialmente no Distrito de Benguela -, penalizando, obvia-mente, os Clubes de Moçâmedes, não obstante tais opções favorecerem monetariamente os jovens contempla-dos. A partir de então, as leis normativas do desporto sofreram profundas correcções em defesa dos interesses das instituições de origem.
Reportamo-nos, em seguida, aos desportistas que deram tardes de glória, com dedicação e "fair-play" e se entregaram com galhardia e aprumo, alguns deles considerados "ases" ou "atletas de eleição" :


A - DO GINÁSIO CLUBE DA TORRE DO TOMBO


Avelino Gonçalves (o mais destacado), Maurício Brazão, António Calão, José dos Santos Frota, Má-rio dos Santos Frota, João da Silva Estrela, Artur da Silva Estrela, António Guedes da Silva, Irmãos Peyroteo, Eugénio da Silva Estrela, Abílio Lisboa Lopes Braz, Eduardo Lisboa Lopes Braz, João Viegas Seixal, Cabral Vieira, António Gonçalves de Matos (Sopapo), João Viegas Ilha, Manuel dos Santos (Cabouco), Arnaldo Bagarrão, Mário Telmo Lisboa Frota, Rui Bauleth de Almeida, Carlos Manuel Guedes Lisboa, Carlos Vieira Calão, entre outros.
O jogador João da Silva Estrela (Pombinha) iniciou neste Clube em 1929 e deu por encerrada a sua carreira em 1950, revelando uma longevidade nunca alcançada por outro atleta.
É oportuno sublinhar que o Ginásio obteve uma brilhante vitória, por 2-1, no confronto com o fortís-simo time do Sporting de Luanda, no final da década de vinte, um resultado histórico que ficou a dever-se à memorável acção dos jogadores João da Silva Estrela, António Guedes da Silva, José dos Santos Frota, Júlio de Andrade, Aníbal de Almeida e outros.
Após uma longa inactividade desportiva, no seguimento da dissensão com o Sport Lisboa e Moçâ-medes, o "Ginásio" restabeleceu a sua equipa, em força, tendo conquistado o campeonato distrital de futebol do Ano de 1946, sem qualquer derrota, feito que nenhum outro Clube havia conseguido. O correspondente time era assim constituído: Manuel dos Santos (Cabouco), Eugénio Estrela, João Viegas Seixal, António Baraço, João Cachopa, Artur Estrela, João Estrela, Eduardo Braz, Abílio Braz, Lumelino Trindade e António G. Matos (Sopapo).
No ano anterior - 1945 - defrontou o Sport Clube Portugal de Benguela, em 30 de Setembro, tendo empatado a duas bolas. Foi o único Clube de Moçâmedes que não foi derrotado no confronto com aquele Clube Benguelense, campeão angolano.
Nos últimos anos que antecederam a independência de Angola a sua história foi pobre.


B - DO ATLÉTICO CLUBE DE MOÇÂMEDES


Abel Vaz Pereira,
Álvaro Peyroteo,
Carlos de Abreu,
China, Orlando Teixeira,
Cristino dos Santos Reis,
Domingos Parente da Silva,
Espinha, João de Sousa,
Fernando Andrade Vieira,
Fernando de Seíxas Peyroteo,
Francisco Melo,
Gilberto Gato,
Hugo Vaz Pereira,
Jacinto Pinho Gomes,
Jaime Viana,
João Pinto,
João Martins (Latinhas),
Joaquim João da Silva (Mangueta),
Jorge Radich,
José Dolbeth e Costa (Chuva),
José Pereira Serieiro,
José Seíxas Peyroteo,
Leogevildo Varandas,
Mário da Ressurreição Rocha,
Mário de Andrade Vieira,
Mário Leitão,
Mário Seixal Almeida,
Mário Seíxas Peyroteo,
Norberto do Vale Gouveia,
Norberto dos Santos,
Raul Radich Júnior,
Roberto Martins,
Rui Duarte de Mendonça Torres,
Sérgio Reinaldo Melim
e outros.

De uma leitura atenta destes nomes se depara com a figura mítica do futebol português, FERNAN-DO DE SEIXAS PEYROTEO, que chegou a ser o seleccionador nacional, em 25 de Outubro de 1961, num confronto com a selecção inglesa a contar para o campeonato mundial, cujo resultado foi desfavorável por 0-2. Este ilustre atleta, feito nas escolas do futebol moçamedense, nasceu em 10 de Março de 1918 na Humpata-Angola e era o 11° membro de uma família de doze irmãos, dez dos quais do sexo masculino e apenas um não jogou futebol. Sua mãe foi professora primária na cidade de Moçâmedes, durante muitos anos. Fernando iniciou-se no futebol em 1932, aos 14 anos de idade, no Atlético Clube de Moçâmedes, de onde transitou para o Desportivo da Huila.Com 15 anos foi convocado para integrar a selecção de Moçâmedes que enfrentou a selecção rival de Sá da Bandeira (Lubango). Jogou algum tempo no Sporting de Luanda e deste foi transferido em 1937 para o Sporting Clube de Portugal, tendo a sua estreia sido realizada, aos 19 anos de idade, contra o Benfica de Portugal, marcando dois golos. Foi dos jogadores mais brilhantes, nascidos em Angola. A sua despedida foi efectivada em 20 de Março de 1949, num jogo da selecção nacional frente à da Espanha, no Estádio do Jamor, cujo resultado foi de empate a um golo. No seu currículo desportivo constam seis títulos como campeão nacional, três vezes vencedor da Taça de Portugal e marcou 700 golos durante a sua carreira, como avançado-centro (hoje ponta-de-lança), além de ter envergado a "camisola pesada" da selecção em 20 jogos e faleceu em Lisboa em 28 de Novembro de 1978. Ainda hoje é lembrado como o "pé canhão" e como um dos "cinco violinos do Sporting", figurando na história do futebol nacional entre os maiores nomes.


C - DO SPORTING CLUBE DE MOÇÂMEDES


Adriano do Nascimento Júnior,
Alfredo Sales Esteves,
Angelo Nunes de Almeida,
Antonio Pedro Bauleth,
Argentino do Nascimento,
Arménio Joaquim Lemos,
Carlos Lopes Alves de Oliveira,
Carlos Maria Inácio,
Eduardo Sampaio,
Emelino Bonito Abano,
Eugénio Alípio,
Fernando Vilares,
Francisco de Freitas,
Honorato Monteiro,
Hugo Bento Maia,
Hugo Vaz Pereira,
Joaquim Guedes da Silva,
José Costa, Pedro Costa,
José Esteves Isidoro,
José Pedro Bauleth, (*)
Júlio de Seixas Peyroteo, (**)
Justo Monteiro,
Manuel Maria Inácio,
Manuel Veli de Sousa,
Mário Romualdo Frota Tendinha,
Maurício de Andrade,
Pedro Paulo,
Pinto, Renato de Sousa,
Rogério Pompeu da Silva,
Telmo Vaz Pereira e outros.

(*) Tal como seu pai da geração antecedente.
(**) Tecnicista brilhante.

O Sporting foi o único clube moçamedense que conquistou quatro campeonatos distritais consecuti-vos, um dos quais em 1954, sendo muitos dos seus atletas de então a base da selecção do Distrito.
A realçar alguns dos nomes referidos anteriormente, seriam Júlio de Seixas Peyroteo, Telmo Vaz Pe-reira, Carlos Lopes Alves de Oliveira e Manuel Veli de Sousa, com credenciais sobejamente fortes no âmbito do futebol angolano. Diz-se até que Júlio de Seixas Peyroteo sempre manifestou argumentos técnicos bem mais relevantes do que seu irmão Fernando. Essa foi a opinião firme dos críticos!


D - DO SPORT MOÇÂMEDES E BENFICA


Adelino Correia,
Alucino,
Américo Viveiros,
Aníbal Nunes de Almeida,
António Marta da Costa,
António V. Seixal,
Armando Guedes da Silva,
Arnaldo Nunes de Almeida,
Artur da Silva Estrela,
Cachiço,
Camilo Costa,
Carlos Alberto Trindade de Abreu (Nito),
Carlos Guedes da Silva,
Carlos Roberto Freitas de Sousa (Beto),
Casímiro Figueiredo Jorge,
Clélio Cunha,
David Proença,
Digialme Bernardinelli,
Edmundo Viegas Seixal,
Emílio Teixeira,
Ernesto da Luz Gonçalves,
Ernesto Ribeiro,
Jaime Ferreirim,
João António Ilha Guedes da Silva,
João da Silva Estrela,
João de Almeida,
João Martins Pereira Júnior,
João Rodrigues Trindade Júnior,
João Teixeira da Silva,
João Viegas Seixal,
Joaquim dos Santos,
Jorge da Silva Loures,
Jorge Madeira,
José Andrade,
José Braga,
José Costa Santos,
José de Oliveira Leitão,
José Ferreira Rangel,
José Paiva,
Júlio de Andrade,
Luís Ferreira Rangel,
Manuel de Oliveira Leitão,
Manuel Sales Esteves,
Mário António Gomes Guedes da Silva,
Mário Eugénio Freitas de Sousa (Zezo),
Mário França,
Melquiades Leitão,
Narciso da Cruz,
Orlando Ferreira Gomes,
Quintino,
Renato Nunes da Silva,
Sérgio Nunes da Silva,
Victor Fernandes,
Victorino de Sousa Simão
e muitos outros.
.

Entre estes nasceram algumas estrelas que dignificaram o desporto de Moçâmedes, além fronteiras, destacadamente Júlio de Andrade (maestria e força), que se transferiu para Luanda e depois para o Desportivo de Lourenço Marques, fazendo parte da selecção de Moçambique; Sérgio Nunes da Silva, transitado para Leopoldville, onde jogou pela selecção do Congo; João Teixeira da Silva para Portugal, tendo feito parte das equipas do Belenenses e do Vitória de Guimarães; Luís Ferreira Rangel que jogou pelo Sporting de Portugal e pelo Olhanense e Narciso da Cruz pelo Sporting de Braga. Ainda, Carlos Roberto Freitas de Sousa, que inte-grou a selecção de Angola, tendo recusado uma proposta do Sport Lisboa e Benfica na altura em que José Águas foi contratado.
Como foi referido no capítulo anterior, o primeiro jogo realizado pelo Sport Lisboa e Moçâmedes (Benfica), com atletas que se divorciaram do Ginásio Clube da Torre do Tombo, por vontade própria, foi com o Atlético Clube de Moçâmedes, em 1936, e quem venceu, surpreendentemente, por quatro golos a um, con-quistando a apetecida "Taça Inauguração". Participaram desse time os seguintes memoráveis:

Guarda-redes: António Víegas Seixal;
Defesas: Edmundo Viegas Seixal e João Víegas Seixal;
Médios: Arnaldo Nunes de Almeida, Artur da Silva Estrela e
Carlos Guedes da Silva;
Avançados: Aníbal Nunes de Almeida, Armando Guedes da Silva
(Capitão), João Martins Pereira Júnior, João da Silva Estrela e Júlio de Andrade;
Suplentes: João Rodrigues Trindade Júnior, Mário França e Melquiades Leitão.

Criara-se uma ferida e consequente rotura em relação ao velho "Ginásio".
Em 1937 o Benfica venceu o primeiro campeonato distrital em que participou, sendo capitão exem-plar Victor Fernandes. Esta foi uma verdadeira lição aos cépticos, os mesmos de uma lista de oponentes que colocaram reservas ao sucesso do Sport Lisboa e Moçâmedes. Mas este, pelas mãos dos seus dedicados atle-tas, dirigentes e adeptos, continuou trilhando o caminho da hegemonia.
Aquela equipa fez a sua primeira deslocação ao Lubango no final da década de trinta, tendo obtido pleno êxito nos confrontos realizados. Sussurrava-se que era um time imbatível! A senda das vitorias continu-ou por muito tempo.
Em 28 de Setembro de 1945 defrontou o time do Sport Clube Portugal de Benguela, campeão de Angola em várias oportunidades, com o qual perdeu por apenas 2-3. O time do Benfica era assim constituído: Digialme Bernardinelli, José Costa Santos, Edmundo V. Seixal, Alcino Barbosa, Roberto Martins, Manuel de Oliveira Leitão, Américo Viveiros, Cachiço, José Ferreira Rangel e Ernesto Ribeiro. Pelo time de Benguela actuaram três moçamedenses, dois dos quais ex-atletas do Benfica:

António Viegas Seixal - Ex-Benfica
Hugo Bento Maia - Ex-Sporting
Joaquim dos Santos - Ex-Benfica

Em Setembro de 1946 o Sport Lisboa e Lubango deslocou-se a Moçâmedes a convite da sua congé-nere, para realizar um jogo particular, comemorativo do décimo aniversário do visitado - Benfica de Moçâ-medes -, que este triunfou inquestionavelmente, confirmando a superioridade do futebol do Namibe.
No ano seguinte, em 9.9.1947, também em Mocâmedes, o Benfica local defrontou o Sport Lisboa e Benguela cujo resultado foi dígnificante para o primeiro e aliciante para os amantes do futebol.
Em Julho de 1952 o Benfica de Moçâmedes realizou uma digressão a Luanda, exibindo-se em dois jogos, em apenas três dias, um dos quais no próprio dia da chegada, após uma viagem demorada e cansativa:

Com o Sporting de Luanda saiu derrotado no Estádio dos Coqueiros.
Com o Ferrovia de Luanda (Campeão de Luanda e de Angola) em-patou no mesmo estádio.

Recordando nomes, eis a formação do time do Benfica:

Beto de Sousa,
Ernesto da Luz Gonçalves,
Figueira e Gois Dias.
Jaime Ferreirim,
Jardim, Alcino,
Joaquim Monteiro da Rocha,
Mário Guedes da Silva,
Narciso da Cruz,
Nito Abreu,
Orlando Ferreira Gomes,
Pires,
Victorino de Sousa Simão,
Zezo de Sousa.

Em 3 e 4 de Agosto de 1958 integraram a selecção de Moçâmedes, como efectivos, sete jogadores do Benfica, contra a de Sá da Bandeira, perdendo o primeiro e vencendo o segundo jogo. Ei-los:

Carlos Roberto Freitas de Sousa (Beto),
Clélio Cunha,
David Proença,
Emílio Teíxeira,
Jorge Madeira,
José Andrade,e
Mário Eugénio Freitas de Sousa (Zezo).

As maiores forças do futebol angolano de então estavam concentradas nos Distritos de Luanda, Ben-guela, Huambo, Huíla, e Moçâmedes e o intercâmbio cimentou o progresso do desporto. Todavia, só a partir da metade do Século XX é que a realização do Campeonato de Angola mereceu credibilidade, por envolver lídimos representantes dos campeonatos distritais.
Até ao derradeiro momento da presença e governação portuguesa em Angola – ano de 1975 - o Ben-fica de Moçâmedes foi um dos marcos no futebol moçamedense, com atitude de líder, ainda que nunca tenha conquistado um campeonato angolano.
Este e os outros Clubes da Terra merecem as saudações de quantos ainda guardam tantas lembranças desse Tempo!


E – DO INDEPENDENTE SPORT CLUBE DE PORTO ALEXANDRE


Agostinho,
Alfredo Gancho,
Armindo Ferreira Alves,
Baraço I,
Baraço II,
Carlos Lopes Alves de Oliveira,
Celestino de Carvalho,
Chiloango,
Elísio Ferreira Alves,
Ermelindo da Costa Pacheco,
Ernesto Ribeiro,
Evaristo,
Fernando,
Gavino,
Hipólito Gomes de Freitas,
João Braga Estrela,
Manuel dos Santos Viegas,
Manuel Gancho,
Manuel Trocado (Neca),
Mário Alves Peleira,
Quicas,
Rodrigues,
Teófilo,
Tica Alves Peleira,
e muitos outros cujos nomes nos
fogem à memória.

Foram os eternos sacrificados até à década de 50, em função dos percursos penosos semanalmente realizados, em incómodos transportes - camionetas abertas -, para participarem honrosamente dos campeona-tos distritais.
Louvável, portanto, a tenacidade e o entusiasmo dos seus jovens e valorosos atletas, para que a vizi-nha Vila Alexandrense estivesse sempre presente.
A atitude desses desportistas e dirigentes espelhou a bravura, a energia e o espirito de coragem da Regedora, Senhora Maria da Cruz Rolão, que um dia, em 1894, impôs a debandada de um navio de guerra inglês que abusivamente havia ancorado na baía de Porto Alexandre.
O "Independente", único Clube desportivo representativo da cidade mais ao sul de Angola, oficial-mente fundado no ano de 1928, foi um dos pilares do futebol do Distrito, tendo conquistado, por mérito pró-prio. Alguns campeonatos, ainda que em desvantagem de meios comparativamente aos Clubes sediados na cidade de Moçâmedes.
Foi o único Clube do Namibe que conquistou o tri-campeonato de futebol de Angola, nos anos de 1969, 1970 e 1971, ficando na posse definitiva da monumental taça "CUCA", para o que contribuíram rele-vantemente os saudosos dirigentes rubro-negros,

Rui Filipe Barreto de Lara,
Manuel Trocado e
Manuel Gancho, treinador-jogador.

além dos respectivos atletas coadjuvantes. Por isso, e não só, e de inteiro merecimento o preito de simpatia e admiração que lhe foi rendido vezes sem conta.
O "Independente", afinal, através do futebol, fez lembrar um sólido promontório sobre o qual tam-bém foi colocado um imperecível padrão histórico, que honrou as gentes heróicas de PORTO ALEXANDRE, elevada à categoria de Cidade em 19 de Maio de 1967, em cujo acto solene estiveram presentes e então Mi-nistro do Ultramar, o governador-geral Rebocho Vaz, o governador do Distrito Sales de Brito e o presidente da Câmara Municipal, Lourdino Tendinha, filho da Terra. São dispensáveis mais palavras para homenagear a plêiade de desportistas que pertenceram ao glorioso Independente, do qual se orgulhou uma população inteira.



F - DE SELECÇÕES REPRESENTANTIVAS DA ASSOCIAÇÃO DE FUTEBOL DE MOÇÂMEDES


Na dependência de tão poucos - de elencos de futebol representantes do Distrito - esteve sempre, em uníssono, uma população inteira, eufórica, vibrante e bairrista, que o pequeno e modesto campo de jogos, alindado com bandeiras multicores, não conseguia albergar no seu todo.
A força mobilizadora do futebol de então já era eloquente e em Moçâmedes não era diferente. As retumbantes vitorias futebolísticas sobre as selecções rivais enriqueciam a auto-estima da população do Na-mibe e em especial nos confrontos com as do Lubango cidade planáltica vizinha localizada a 240 quilómetros de distância.
Via-se o desporto, em especial a vertente "futebol", como importante veículo da superioridade mo-çamedense, que galvanizava e mobilizava os seus fieis adeptos, de qualquer cor clubística.
Os resultados positivos das selecções, conseguidos ao longo de tantas épocas, e os nomes saudosos dos atletas de várias gerações que por elas passaram, são o melhor testemunho da epopeia futebolística que ainda vive nas memórias dos que sobrevivem.
Faz-se jus a alguns nomes dos que galhardamente integraram tais selecções:

Abel Vaz Pereira,
Abílio Lisboa Lopes Braz,
Adelino Correia,
Adriano do Nascimento Júnior,
Aníbal Nunes de Almeida,
António Viegas Seixal,
Argentino do Nascimento,
Armando Guedes da Silva,
Avelino Gonçalves,
Cachiço,
Carlos de Abreu,
Carlos Guedes da Silva,
Carlos Lopes Alves de Oliveira,
Carlos Maria Inácio,
Carlos Roberto Freitas de Sousa,
David Proença,
Domingos Parente da Silva,
Eduardo Lisboa Lopes Braz,
Emelino Bonito Abano,
Fernando de Seixas Peyroteo,
Fernando Vilares,
Gilberto Gato,
Hipólito Gomes de Freitas,
Hugo Bento Maia,
Hugo Vaz Pereira,
João António Guedes da Silva,
João Braga Estrela,
João da Silva Estrela,
João Teixeira da Silva,
Joaquim dos Santos,
Joaquim Guedes da Silva,
José de Seixas Peyroteo,
José Ferreira Rangel,
Júlio de Andrade,
Júlio de Seixas Peyroteo,
Luís Ferreira Rangel,
Manuel Maria Inácio,
Manuel de Oliveira Leitão,
Manuel Veli de Sousa,
Mário Andrade Vieira,
Mário da Ressurreição Rocha,
Mário de Seixas Peyroteo,
Mário Leitão,
Maurício de Andrade,
Nito de Abreu,
Norberto do Vale Gouveia,
Norberto dos Santos,
Pedro Paulo,
Raul Radich Júnior,
Renato Nunes da Silva,
Roberto Martins,
Rogério Pompeu da Silva,
Sérgio Nunes da Silva,
Sérgio Reinaldo Melim,
Telmo Vaz Pereira
e outros mais.

Qualquer destes desportistas poderia ter feito refulgente carreira no futebol em Portugal.
Em Julho de 1938, para comemoração da visita a Angola do Presidente da República, general Antó-nio Oscar Fragoso Carmona, a equipa da Académica de Coimbra realizou, em Luanda, três jogos com as principais selecções angolanas - Luanda, Benguela e Huíla - , sendo a desta última formada por jogadores de Moçâmedes e de Sá da Bandeira. de Moçâmedes fizeram parte Carlos Guedes da Silva, Manuel Veli de Sou-sa, António Viegas Seixal, especialmente. Pela selecção de Luanda jogaram alguns atletas oriundos das esco-las moçamedenses e que então residiam na Capital, onde exerciam suas profissões: Telmo Vaz Pereira, Júlio de Andrade e Júlio de Seixas Peyroteo.
Esta particularidade confirma a mais valia dos desportistas do Namibe, mesmo abstraindo os resulta-dos numéricos conseguidos. A qualidade desses atletas era incontestável. Uma vez mais o futebol de Moçâ-medes saiu dignificado!
Ao invés, há que se pôr em relevo um episódio, ela negativa, que envolveu a selecção de Moçâme-des, anfitriã, não pelo resultado numérico em si, mas sobretudo pela imagem deixada: O Sport Lisboa e Ben-fica realizou uma digressão ao Continente Africano, entre 25 de Julho a 4 de Agosto de 1550, e na sua passa-gem por Angola defrontou algumas selecções distritais, entre as quais a de Moçamêdes, que perdeu por 1-10. A arbitragem, a cargo dos moçamedenses João Cunha, José Adriano Borges e Mário Romualdo Frota Tendi-nha, deixou muito a desejar no aspecto disciplinar, obrigando-se a concretizar algumas expulsões, a origem da derrocada. Da selecção respectiva fizeram parte:


Adriano do Nascimento Júnior,
Carlos Lopes Alves de Oliveira,
Carlos Maria Inácio,
Carlos Roberto Freitas de Sousa (Beto),
José Costa,
José Pedro Bauleth,
Mário Leitão ,
Norberto do Vale Gouveia,
Pinto,
Roberto Martins
e outros.

A equipa do Benfica de Portugal, campeã nacional com Ted Smith (treinador), havia conquistado a Taça Latina e era constituída por:

Arsénio,
Clemente,
Contreiras,
Corona,
Fernandes,
Francisco Ferreira ,
Gil,
Jacinto,
José Costa,
Rogério Lantres de Carvalho,
Rosário
e outros.

Uma página pálida da historia futebolística Moçâmedense, que não chegou a denegrir todo um pas-sado de glórias inesquecíveis!


3.1.2. – BASQUETEBOL


Esta modalidade foi criada no Século XIX pelo Dr. James Naismith, professor do Colégio Springfi-eld, em Massachussets (E.U.A.),com a finalidade de procurar dar aos alunos que orientava um adequado des-envolvimento das suas aptidões físicas. Na Europa, só a partir da guerra de 1914/1918 é que começaram a praticá-la, em face das exibições feitas em França pelos soldados norte-americanos. Em Angola e natural-mente em Moçâmedes, só na década de quarenta (em 1940/1941) e após cerca de cinquenta anos após a cria-ção deste desporto, é que a sua juventude se sensibilizou a dar os primeiros passos e a população a evidenciar sinais claros de aceitação.
Não fosse o futebol o "Rei maior" do desporto!
É nesse feliz momento que se manifesta a influência dos instrutores de ginástica, Augusto Quental de Meneses e Emídio Cecílio Moreira, da "Sala de Cultura Física" e do "Sport Moçâmedes e Benfica" respecti-vamente, os quais introduziram a modalidade na Cidade.
Foi o prelúdio de uma longa cruzada em prol deste desporto, que alguns consideraram inserido nas "modalidades pobres", equivocadamente.
Dos pioneiros do "basquetebol" masculino em Moçâmedes e a quem muito se ficou a dever, exalta-mos os seguintes atletas:

Álvaro Rodrigues da Silva,
Américo Rodrigues da Silva,
António José Gomes,
Artur Conceição,
Artur Pinho Gomes,
Carlos Maria Inácio,
Isidro Ferreira Rangel,
João Rutino Mendes Dias,
Joaquim dos Santos,
José Chuva,
José de Oliveira Leitão,
José Ferreira Rangel,
Manuel Oliveira Leitão,
Mário de Andrade Vieira,
Norberto do Vale Gouveia,
Orlando Teixeira da Silva,
Rui Quental de Meneses
e outros.

Da classe Juniores de então já faziam parte:

Abílio Gouveia,
Artur Augusto Costa,
Eduardo Bento,
Ermelindo Pereira,
Heitor Casinhas de Moura,
Humberto dos Santos Pinho Gomes,
Joaquim G. Duarte,
José Henrique Martins Major,
Luís Ferreira Rangel.

Os primeiros jogos foram concretizados por aqueles dois grupos, no recinto desportivo do Benfica, com tal sucesso que a conquista de adeptos se tornou fácil, a ponto dos lugares destinados aos espectadores se terem revelado insuficientes. Com solidez o "basquetebol" masculino prosseguiu e os atletas da Sala de Cultu-ra Física se dispersaram para os Clubes locais, Sporting e Atlético principalmente, que passaram a constituir suas próprias equipas.
O Benfica criou, pouco tempo depois, duas equipas femininas (camisolas vermelha e branca), que exibem entre si os seus talentos, já que os outros Clubes não dispunham, ainda, de formações que pudessem dar réplica às pioneiras: Olga Coquenão, Ana Liberato, Maria Augusta Gouveia, Susete Moura, Virgínia Santos, Ofélia Nascimento, Semi Amaro, Luzia Cabral, Nené Cabral, Esmeralda Figueiredo, Ivete Campos e Hélia Paulo.
A equipa feminina do Atlético foi constituída depois, com a construção do seu campo, contribuindo para o enraizamento da modalidade. O terceiro Clube a formar o seu elenco de basquete feminino foi o Spor-ting, cônscio das suas reais responsabilidades. Para colmatar as saídas das irmãs Maria Augusta Gouveia e Maria Amélia Gouveia para o Atlético, a secção de "basquetebol" benfiquista teve a felicidade de contar com outras excelentes atletas, também irmãs - Clarabela e Crina Trindade -, recém chegadas ao Clube da Águia, mais jovens, que se manifestaram de grande valia na prossecução das vitórias rubras.
Só muito mais tarde, no decurso da década de cinquenta, por iniciativa de António Inácio dos Santos é que o vetusto Ginásio Clube da Torre do Tombo organizou a sua equipa feminina, por sinal muito talentosa e vitoriosa.
O primeiro evento feminino contra equipa do exterior teve como protagonistas o Sport Moçâmedes e Benfica e o Sporting Clube da Chibia, na cidade de Moçamêdes, em 1943, tendo estas demonstrado alguma superioridade.
O intercâmbio teve continuidade com deslocações de e para Sá da Bandeira, Benguela, Catumbela, Lobito, Bocoio e Luanda, os principais centros desportivos angolanos, com interveniência de todas as equipas do Namibe, mas foram as do Benfica e do Ginásio que mais êxitos obtiveram fora de seus domicílios.
Fizeram historia, na vertente "basquetebol", os atletas seguintes, de várias gerações, vinculados aos Clubes moçamedenses, os quais conquistaram títulos em diversas épocas, intercaladamente, mas foi o Sport Moçâmedes e Benfica que evidenciou maior supremacia em ambas as classes - masculina e feminina - nos campeonatos Distritais realizados. Também o que mais atletas seleccionados proporcionou.
Eis, portanto, os praticantes de basquetebol que fazem parte do historial:

MASCULINO:

SPORT MOÇÂMEDES E BENFICA:

Alberto van der Kellen,
Alfred Hachmeister,
Álvaro Rodrigues da Silva,
António Cardoso,
António Silva Araújo,
Arménio Joaquim Lemos,
Arnaldo van der Kellen,
Artur Conceição (Capitão),
Artur Pinho Gomes,
Clélio Cunha,
Daniel Santos,
Ermelindo Pereira,
Fernando Brito Pestana,
Fernando Eduardo França Galvão,
Humberto dos Santos Pinho Gomes,
Izidro Ferreira Rangel,
João Rufino Mendes Dias,
Joaquim dos Santos,
Jorge Madeira,
José de Oliveira Leitão,
José Ferreira Rangel,
Luís Ferreira Rangel,
Manuel de Oliveira Leitão,
Manuel Piedade,
Nito de Abreu,
Orlando Ferreira Gomes,
Pieter van der Kellen,
Vieira Dias.

ATLÉTICO CLUBE DE MOÇÂMEDES:

Américo Rodrigues da Silva (Leiria),
António Figueiredo,
António José Gomes (Tó),
Fernando Andrade Vieira,
Francisco do Carmo,
José Dolbeth e Costa,
José Gomes de Almeida,
Mário Andrade Vieira,
Norberto do Vale Gouveia,
Orlando Teixeira da Silva,
Rui Quental de Meneses
e outros.

SPORTING CLUBE DE MOÇÂMEDES:

Carlos Maria Inácio,
Carlos Lopes Alves de Oliveira,
José Pedro Bauleth,
Humberto de Jesus,
Manuel Maria Inácio,
Rui Gomes
e tantos outros.

FEMININO:

SPORT MOÇÂMEDES E BENFICA:

Alice,
Amélia de Castro,
Ana Conceição,
Ana Liberato,
Ana Rosa,
Carla Almeida Frota,
Clarabela Trindade,
Esmeralda Figueiredo,
Fátima Abrantes,
Fernandina Peyroteo Guedes,
Gina Trindade,
Helena Peyroteo Guedes,
Hélia Paulo,
Ivone Hortense V. Bernardino,
Júlia Vilhena,
Lourdes Teixeira,
Luciana Maia,
Luzia Cabral,
Maria Amélia Gouveia,
Maria Augusta Gouveia,
Maria do Céu Jardim Martins,
Maria dos Prazeres,
Maria Isaura S. Andrade Aguilar,
Maria Manuela Sena Costa,
Maria Margarida F. Tavares,
Marisia Pestana,
Marlene de Oliveira,
Minelvina Maria da Cruz,
Nené Cabral,
Ofélia Nascimento,
Olga Coquenão,
Semi Amaro,
Susete Moura,e
Virgínia Santos.

ATLÉTICO CLUBE DE MOÇÂMEDES:

Celeste Orneias,
Claudete Figueiredo,
Edith Nascimento,
Esmeralda Freitas,
Júlia A. Silva Jardim,
Leonilde Sousa,
Milocas Alves,
Susete Freitas
e tantas outras.

SPORTING CLUBE DE MOÇÂMEDES:

Antonieta Osório,
Cláudia Ilha Guedes da Silva,
Fátima Martins,
Júlia Castro,
Leontina Edite Pinheiro,
Maria Júlia Malô de Abreu (Pítula),
Noelma Coelho,
Orlanda Martins (Pequenó)
e outras


GINÁSIO CLUBE DA TORRE DO TOMBO:

Celina Gomes,
Celísia Vieira Calão,
Eduarda Bauleth de Almeida,
Maria Helena Costa Gomes,
Maria Paula Ferreira,
Maria Ricardina Guedes Lisboa ,
Nídia de Sousa Almeida,
Zélia Vieira Calão
e tantas outras.

SELECCIONADAS POR MOÇÂMEDES:

Celina Costa Gomes,
Celísia Vieira Calão,
Clarabóia Trindade,
Fátima Abrantes,
Maria de Lourdes Figueiredo Tavares,
Maria Eduarda Bauleth de Almeida,
Maria Helena Costa Gomes,
Maria Margarida Figueiredo Tavares,
Marlene de Oliveira,
Minelvina Maria da Cruz,
Noelma Coelho.

Relativamente a esta modalidade, há que destacar o feito conseguido pelo Sport Moçâmedes e Benfi-ca no ano de 1957, consubstanciado na conquista do campeonato Distrital nas classes "Masculina" e "Femini-na". Na classe de "Seniores masculina", foi "Tri-campeão" de 1957, 1958 e 1959, cujo orientador técnico foi Artur Pinho Gomes. Os atletas campeões foram:

Alberto van der Kellen,
António Cardoso Alves,
António Silva Araújo,
Arnaldo van der Kellen,
Clélio Cunha,
Daniel dos Santos,
Jorge Madeira,
Orlando Ferreira Gomes,
Pieter van der Kellen.

Também na época de 1957,o Benfica obteve grandes sucessos pela equipa feminina, inclusive na deslocação a Luanda, onde conquistou as taças seguintes nos confrontos realizados no "Estádio Moura de Carvalho", "Maria Helena Bebiana Rebelo" sobre o Ferroviário de Luanda, "Namibe" sobre o Sport Luanda e Benfica e "Manuel Veiga" sobre o Atlético Clube de Luanda.


3.1.3. VOLEIBOL


Tal como o basquetebol, esta modalidade nasceu num colégio de Massachussets (USA) idealizada pelo norte-americano William Morgan, com a designação inicial "Mintonette", em 1896, levou algum tempo a ser conhecida internacionalmente. Contudo, foi no continente Asiático que foi melhor assimilada, antes mes-mo de ter sido introduzida na Europa por militares norte-americanos que ali combatiam durante a Segunda Guerra Mundial. Terminada esta guerra, foi criada em 1947 a Federação Internacional, com sede na cidade de Paris, mas reconhecida pelo Comité Olímpico apenas em 1949, quando se realizou o primeiro Campeonato do Mundo (Masculino). Foi em Tóquio, no ano de 1964, que foi inserida nos Jogos Olímpicos pela primeira vez.
Após um século da sua criação, apenas dez vezes o voleibol foi integrado nos Jogos Olímpicos, sen-do sua primeira vencedora a Rússia, que repetiu a façanha mais duas vezes consecutivas, seguindo-se os Esta-dos Unidos da América (duas vezes seguidas), a Holanda (sexta vencedora), Japão, Polónia, Brasil e Jugoslá-via.
A Federação Portuguesa de Voleibol, fundada apenas em 1947, abrange quinze associações regionais somente.
Com este intróito tem-se a intenção de revelar que apesar de interessante, este desporto não teve a re-ceptividade desejável da parte dos portugueses e muito menos dos angolanos e moçamedenses.
Foi precisamente no final da década de quarenta que em Moçâmedes teve lugar o ensaio do "Volei-bol", pelo Sport Moçâmedes e Benfica e pelo Sporting Clube de Mocâmedes, sob a orientação de Úrbulo Antunes da Cunha, recém chegado da "Metrópole", onde frequentou a universidade. A carência do necessário entusiasmo, associada às suas responsabilidades profissionais, fê-lo abandonar s essa tarefa, mas logo sucedi-do por outros orientadores improvisados, com sucesso moderado. Os atletas utilizados praticavam basquete-bol, cumulativamente, aproveitando-se os de mais adequada estatura e com a necessária habilidade.
Os Clubes teimosamente mantinham as suas equipas, que se confrontavam na defesa do seu prestí-gio, dos interesses clubistas e para respeitarem calendários elaborados pela Associação dos Desportos de Moçâmedes, órgão que tutelava a modalidade, entre outras.
Ainda foram realizados torneios entre as selecções de Moçâmedes e de Sá da Bandeira, na cidade planáltica, introduzidos no programa de festas da “Senhora do Monte”.
A apetência do público ajudou a desmoronar friamente a modalidade.
Dada a efemeridade da existência do "voleibol" em Moçâmedes, não há a destacar atletas pelos ní-veis de suas actuações.
Apenas é louvável a iniciativa dos Clubes e o esforço dos atletas que se dedicaram, sem limites, à modalidade.
Entretanto, é de evidenciar alguns desses atletas pioneiros:

Do Atlético Clube de Moçâmedes:

António Figueiredo,
António José Gomes,
Armando Quental de Meneses,
José Gomes de Almeida,
Mário Andrade Vieira,
Orlando Teixeira da Silva,
Rui Quental de Meneses
e outros.

Do Sport Moçâmedes e Benfica:

Alfred Hachmeister,
Armando Piedade,
Artur Pinho Gomes,
João Rufino Dias,
José Ferreira Rangel,
Manuel de Oliveira Leitão.

É de realçar a equipa vitoriosa de 1953/1954, constituída pelos seguintes desportistas:

Armando Piedade,
Arnaldo van der Kellen,
Carlos Gomes,
Carlos Roberto Freitas de Sousa,
Fernando Pestana,
Humberto dos Santos Pinho Gomes.

Do Sporting Clube de Moçâmedes:

Carlos Lopes Alves de Oliveira,
Carlos Maria Inácio,
Humberto de Jesus,
José Pedro Bauleth,
Manuel Maria Inácio,
Pedro Costa
e outros.


Justo é sublinhar-se a influência da "Mocidade Portuguesa" na prática da modalidade, através de alu-nos da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em benefício dos Clubes locais, já que a sua con-tribuição desportiva sempre se mostrou muito forte.


3.1.4. HÓQUEI EM PATINS


Foi já no século XX, entre os anos de 1908 e 1910, que nasceu o hóquei em patins, no Condado In-glês de Kent, seguindo-se-lhe a Alemanha, a Suíça, a França e a Bélgica.
Só em 1912 é que timidamente se realizou o primeiro encontro em Portugal, mas até ao fim da déca-da foram organizados os primeiros campeonatos interclubes. Com a fundação da Federação Portuguesa de Patinagem, em 1933,o hóquei tomou novos rumos, dando lugar à dinamização da modalidade.
Os ingleses apresentavam-se sempre mais evoluídos, até à II Guerra Mundial, conquistando nove campeonatos europeus e dois mundiais. A selecção portuguesa, não compareceu, por incrível que pareça, ao torneio internacional de 1930.Todavia, no período "pós-guerra", em 1947, a selecção portuguesa foi a primei-ra a ganhar o campeonato europeu e o campeonato mundial, simultaneamente, mantendo-se por muito tempo como grande potência na roda deste desporto.
Este foi o melhor incentivo para que o Ultramar desse início à prática do hóquei, com seriedade, conquistando os seus espaços.
Em Angola, em 1947, já existia hóquei em diversas cidades: Luanda, Lobito, Benguela e Nova Lis-boa, mas Moçâmedes estava excluída deste rol de pioneiros.
Decorria o ano de 1947, precisamente, quando num "boletim desportivo" editado pelo Sport Lisboa e Moçâmedes, comemorativo do seu 11° aniversário, José da Cruz Almeida denunciou a presumível falta de criatividade dos dirigentes desportivos moçamedenses, pondo em causa a inexistência de equipas de "hóquei em patins", afastando-se de outros centros, já referidos acima, nos quais a sua prática regular já havia sido difundida há algum tempo. Avançados que estavam neste desporto, os respectivos jogadores haviam atingido satisfatório aperfeiçoamento técnico, prevendo-se distanciamento cada vez mais acentuado se não fossem tomadas imediatas medidas no sentido de uma breve iniciação no Distrito de Mocâmedes. Também a cidade de Sá da Bandeira foi englobada nesta critica.
Na verdade era surpreendente que sendo Moçâmedes, habitualmente, pioneira noutras modalidades, tenha-se alheado de os acompanhar, com a agravante de então já ser Portugal, campeã do mundo em "hóquei".
Mas os Clubes do Distrito estavam atravessou do uma alegada crise "Financeira, com as consequen-tes debilidades, para superação da qual já estavam fazendo grande esforço administrativo, com parcimónia nas despesas atinentes às outras modalidade desportivas.
Coincidentemente, ou não, os Clubes, num esforço colectivo, começaram a reorganizar-se e algum tempo depois (em 1949/1950) surgiram os primeiros candidatos interessados para a prática de “hóquei em patins”, de forma incipiente, claro, ainda com improvisação de técnicos, mas contavam com apoios visando a construção de “rinks” e aquisição de equipamentos.
É que as crises despoletadas nos Clubes eram logo dissipadas pelos tradicionais “carolas”, geral-mente influentes na vida citadina.
Mais uma vez deram o seu contributo os adeptos, o comércio, a indústria de pesca e outras institui-ções, em benefício do "Desporto”.
O nobre esforço fez nascer, finalmente, o “Hóquei em Patins”, imortalizando-o na medida em que a partir daí o seu crescimento progressivo foi notável, ombreando com os principais times angolanos e confir-mado pelos invejáveis resultados obtidos.
O pioneirismo coube ao Atlético e ao Sporting, seguindo-se o Independente de Porto Alexandre e o Benfica.
A estes se deve, por ordem cronológica, o imparável desenvolvimento do “Hóquei”, no início da dé-cada de cinquenta:

ATLÉTICO CLUBE DE MOÇÂMEDES:

Álvaro Jardim (Chamenga),
Arménio Jardim,
José Adriano Borges, (*)
Joyce Chalupa,
Laurentino Couto,
Laurindo Jardim,
Matos Mendes,
Tolentino Ganho.

(*) Acumulando as funções de treinador.

INDEPENDENTE SPORT CLUBE DE PORTO ALEXANDRE

Carlos Cartier Sacramento,
Hernani Silva,
Humberto Sena Tendinha,
José Correia de Carvalho,
José Venâncio Trocado Delgado,
Mário Augusto Lopes,
Roberto Parente.

SPORT MOÇÂMEDES E BENFICA

António Cardoso Alves,
António da Silva Araújo,
Daniel Ventura dos Santos,
Edgar Aboim,
Emílio Teixeira,
Fernando Soares,
Hermenegíldo Abrantes,
Hernani Nunes,
José M. Figueiredo,
Matos Mendes,
Pieter van der Kellen,
Rui Coelho de Oliveira,
Toni Padrão (*).

(*) Com a supervisão inicial de Ernesto Oliveira, também director do Clube rubro.

SPORTING CLUBE DE MOÇÂMEDES

Artur Trindade,
Carlos Ilha Guedes da Silva,
Joaquim Ilha Guedes da Silva,
Maló de Abreu,
Nono Bauleth,
Rui Emídio (Rabiga),
Rui Sampaio,
Rui Ventura Mangericão,
Toni Braz de Sousa. (*)

(*) Sob orientação de Domingos Camarilha e supervisão de José Joaquim Fragata. Mais tarde foi treinador José Pedro Bauleth.

Aos pioneiros mencionados, juntaram-se os seguintes hoquistas:

ATLÉTICO:

Carlos Jardim,
Eloi Craveiro,
Francisco Ganho,
e outros.

SPORTING:

Álvaro Nóbrega,
Eugénio Guerra,
José Alves,
Oliveira (Briguidé),
Serrano,
Tito Guérin (Guto),
Vieira Ascenso
e outros.

Os êxitos conseguidos cumulativamente pelos Clubes, resultaram no despertar de especial atenção da parte da população, que enchia as bancadas dos campos do Atlético, do Sporting e do Benfica, no apoio fre-nético às suas cores.
O hóquei em patins passou a ser o “vice-rei” do desporto no conceito dos adeptos moçamedenses.
O seu período áureo, no Distrito de Moçâmedes, foi de 1950 a 1970, em que muitos jovens, na maio-ria estudantes, elevaram a bom nível mais uma modalidade desportiva, à semelhança do que aconteceu com o futebol, o ténis, o basquetebol e a vela. Há que distinguir, contudo, o Atlético Clube de Moçâmedes, campeão de Angola no ano de 1962, cujo time era então treinado pelo experiente e valoroso hoquista Arménio da Silva Jardim, já retirado da actividade, espontaneamente.
Também em juniores, o Atlético repetiu, nos anos de 1963 e 1964, os títulos de “campeão de Ango-la”, com treinadores diferentes – José Adriano Borges e Rui Coelho de Oliveira, respectivamente.
Do enriquecimento do potencial dos praticantes de hóquei em patins, de uma forma global, originou o equilíbrio de forças, daí nascendo selecções valiosas, quase imbatíveis no território angolano.
O Sporting Clube de Moçâmedes foi o Clube que sempre dispensou as selecções maior número de atletas, de alta qualificação.
As selecções, nesse período de ascensão consolidada, constituídas com base nos seguintes atletas, os quais proporcionaram noites de glória aos torcedores moçamedenses:

Álvaro da Silva Jardim (Atlético)
Arménio da Silva Jardim (Atlético)
Carlos Ilha Guedes da Silva (Sporting)
Carlos Manuel Sousa Joyce Chalupa (Sporting)
Hernani Silva (Independente)
Joaquim Ilha Guedes da Silva (Sporting)
Mário Augusto Lopes (Independente)
Nono Bauleth (Sporting)
Rui Coelho de Oliveira (Benfica)
Rui Emídio (Sporting)
Rui Ventura Mangericão (Sporting)
Tolentino Ganho (Atlético)

Nas noites iluminadas o brilho intenso destas estrelas sobressaia. Era, afinal, uma constelação inde-lével!


3.1.5. TÉNIS (LAW-TÉNIS)


Levava-se a sério, em Moçâmedes, a prática desta modalidade, principalmente até à data de quarenta (Século XX), pressupostamente por a cidade estar dotada de alguns “courts de ténis” apropriados e, crê-se, por não existirem outras alternativas desportivas senão o futebol. Ali foram formados vários campeões, reco-nhecidos não só em Angola mas também internacionalmente, para gáudio dos seus apaixonados adeptos.
A dedicação e a determinação dos respectivos atletas levava-os à concretização dos sonhos de uma jovem cidade com justificadas ambições em todos os campos.
Fascinados pela elegância deste desporto e pela inclusão da modalidade nos jogos olímpicos, desde 1896, com acompanhamento entusiástico, alguns jovens da geração de ouro (décadas de trinta e quarenta) preparavam-se intensamente, até à desejável conquista do pódio.
Por ser uma modalidade considerada selecta, o número de atletas praticantes foi sempre reduzido, comparado com os desportos colectivos.
Eram frequentes os torneios de “singulares” e de “duplas”, de ambos os sexos, e não eram poucos os torcedores que extravasavam as suas emoções.
Após a criação da Federação Internacional de Ténis - FIR, em 1928, e a consequente profissionaliza-ção, em Moçâmedes continuou existindo o amadorismo puro, não obstante o somatório de sucessos dos seus tenistas.
No ano de 1939 o campeonato de Angola integrou alguns tenistas procedentes de Portugal, Domin-gos d’Avillez, António Calém, Nicolau de Almeida e Eduardo Ricciardi, figuras de relevo no ténis português.
Neste ano os representantes do Continente evidenciaram inegável superioridade, tendo sido finalistas Avillez e Ricciardi, que este ganhou com mérito.
Destacamos alguns desses mitos e pioneiros, todos naturais de Moçâmedes-Angola, da geração de ouro, imortalizados pelas suas retumbantes e memoráveis vitórias:

ARTUR FERREIRA TRINDADE:

Venceu os dois primeiros campeonatos de Angola, nos anos de 1934 e 1935, em singulares. Também vitorioso noutros torneios importantes e líder desta modalidade em várias épocas. Na variante de “pares” ganhou algumas competições destacadas, fazendo parceria com o irmão Rogério.

JORGE RADICH:

Um dos principais valores do ténis angolano – 4 vezes campeão de Angola em singulares, 4 vezes campeão de Angola em pares mistos, 7 vezes vencedor da “Taça Bulock”. Vencedor de 29 trofeus e consi

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Subsidios para a História de Mossâmedes/Moçâmedes (Namibe): Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando





Subsidios para a História de Moçâmedes/Namibe:
Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando


Dos vários episódios que marcaram o passado desta Fortaleza, conta-se que em 1869 estava ali aquartelado um contingente de 100 praças pertencentes ao Batalhão de Caçadores 3, na sua quase totalidade criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas, e que na noite de 14 de Novembro daquele mesmo ano, essas praças amotinaram-se para protestarem contra os serviços violentos a que eram obrigados, contra os castigos rigorosos que sofriam, e contra os descontos excessivos que eram feitos nos seus prés. Acusavam o capitão Miranda como responsável de toda aquela situação.

Avisado o então chefe do Concelho, Major Joaquim José da Graça, do que se estava a passar, este dirigiu-se à Fortaleza, onde, perante o seu espanto, os soldados amotinados já pegavam em armas, e chegaram mesmo a alvejá-lo,  com um tiro de pistola, ainda que sem consequências. O oficial em causa conseguiu dissuadi-los dos seus intentos, e prometeu recebê-los no dia seguinte na secretaria do Concelho, a fim de apresentarem as suas queixas, o que de facto aconteceu.

Após um diálogo apaziguador, o Major Graça retirou-se, parecendo tudo estar debelado, porém os soldados voltaram a sublevar-se e, convencidos de que os habitantes da vila se preparavam para os dominar pela força, armaram-se de novo, carregaram as peças, e apontaram-nas para a vila, prontos a fazer fogo, e mesmo a destruir a povoação e incendiar as casas de seguida, levando os moradores apavorados, receosos de toda a espécie de atrocidades, a abandonaram as suas habitações e a  procuraram refúgio nas Hortas, que ficavam a três quilómetros do aglomerado populacional.

Foi então que o inesperado aconteceu. No meio de tão dramática situação, quando parecia estar tudo perdido, que a Sra D. Maria do Carmo Lobo de Ávila, esposa do chefe do Concelho, "saiu resolutamente da sua casa, encaminhou-se ligeira para a Fortaleza, e confiada, corajosa, varonil, aparece de improviso perante a turba arrogante e impetuosa dos revoltados. A gentileza senhorial do seu porte e o excesso prestigio das suas virtudes, contiveram os rancorosos impulsos dos amotinados, que, tomados do espanto que o imprevisto lhes causara, e , confundidos pela severidade que lhes transmitira o nublado rosto da dama, receberam-na com todo o respeito, formaram fileiras, e apresentaram-lhes armas. Perante a atitude de acatamento das praças, a  Senhora pôde desempenhar a nobre missão que se lhe impusera: a de os vencer pelo sentimento. Para o conseguir, mostrou-se dominada por irreprimível eloquência, fez-lhes sentir a hidiondez do crime que iam cometer,  dirigimdo-se-lhes com uma inflexão de voz tocantemente angustiosa, suplicas ardentes e afervoradas. Os revoltosos, em cujos olhos borbulhavam lágrimas de arrependimento, comoveram-se, e assumiram em seguida inteira obediência. O Chefe do Concelho, que estivera sempre junto de sua esposa, ordenou-lhes então, como lhe cumpria, que descarregassem as peças e as espingardas e recolhessem a pólvora. Tinham-se entregado. A vila estava salva. O espírito de rancor, de violência e de rebeldia que desorientara as praças, que por pouco as não levou à destruição da vila, fora inteiramente subjugado pela palavra enternecedora duma dama fraca e delicada. .."(1)
(1) Passagens retiradas do livro Moçãmedes, de Mendonça Torres, obra cit 2 vol pp. 201 a 206
Cecilio Moreira : "Fortalezas, Fortes, Fortins e Fazendas de Moçâmedes no Sul de Angola". Subsidios para a História de Portugal em Angola. Separata n.8 da Revista Africana Universidade Portucalense, Porto, 1991.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Baía dos Tigres, Moçâmedes, Angola: Morte nas Dunas




A Igreja servia de hangar ao próprio avião, para protecção contra as areias trazidas pelo vento forte de sudoeste (a garôa), que tudo cobria à sua passagem. Desde 1951, que a Baía dos Tigres,  a Aldeia do Leão, passou a ser conhecida pela povoação de S. Martinho dos Tigres ou Vila de S. Martinho dos Tigres.

O avião junto do Destilador de água salgada. Nos dias de ventos fortes (garôa) era impossível a avionete descolar...

 


O piloto Carlos Teixeira que morreu no fatídico desastre

 






Depois de quase um século percorrido por arrastadas lutas e privações de toda a ordem, as gentes da Baía dos Tigres, em finais dos anos 1940, inícios de 1950, em matéria de transportes, passaram a ser servidas, duas vezes por semana, por uma avionete que de início era a do Aero Clube de Moçâmedes. (1)   Mais tarde as deslocações  aéreas passaram a fazer-se através dos monomotores “Bonanza”, da empresa de Táxis Aéreos do Sul de Angola, com sede em Moçâmedes. (2)  As carreiras eram efectuadas bi-semanalmente, à terças e sextas-feiras, e assim vinha acontecendo desde essa altura até que no ano de 1967, no dia 17 de Junho,  numa malograda sexta-feira o “Bonanza” que fazia, como sempre, a sua viagem habitual,  descolando pelas nove e meia da manhã e aterrando uma hora depois na Baía dos Tigres, após escala Porto Alexandre para levar um importante passageiro, o Delegado de Saúde que ali ia dar consulta, dessa vez não aterrou…   Nos Tigres, a ansiedade e o pânico tomaram conta da estrita população. As horas foram passando, o “Bonanza” não aparecia. Naquele avião vinham a bordo quatro jovens estudantes, na flor da vida, que vinham passar as férias escolares junto de seus pais e amigos que ali, ansiosamente as aguardavam. Receava-se o pior. Quando a noite chegou, consumidas estavam já todas as esperanças de um reencontro. Algo de pior teria acontecido!

Nesse dia também as gentes dos Tigres não receberam  as encomendas essenciais  a quem vive isolado nem os jornais, nem a correspondência, as noticias que lhes iam dando forças para ali se manterem na  luta sem tréguas pelo pão de cada dia, contra os  elementos  da natureza, em isolamento quase total, apenas estimulados pela fartura piscícola daquele pródigo mar.
Estava-se em plena época de cacimbo, que de Maio a Setembro assola as regiões do Sul de nevoeiro cerrado. O “tecto” baixo levava a que toda e qualquer perfuração efectuada pelo “Bonança”, muito junto à terra,  constituísse um perigo. As pistas eram improvisadas como eram  praticamente nos vôos locais em Angola,  não havia equipamentos que facilitassem a aproximação a terra em dias de fraca visibilidade, sequer os aviões possuíam a aparelhagem sofisticada dos nossos dias. Tudo dependia do piloto, do seu conhecimento do terreno,  da sua perícia, da sua competência profissional. Restava a esperança que o avião se tivesse  dirigido para a foz do Cunene,  a 55 km distância, para ali aterrar em segurança. Ou então que tivesse aterrado  numa das planuras da zona semi-desertica. A verdade é  que o "Bonança" estava desaparecido. Nada se sabia bem dele, nem das seis pessoas que vinham a bordo. 

 Na manhã seguinte a Imprensa e a Rádio deram grande relevo ao acontecimento. O constrangimento e comoção eram gerais. Os habitantes dos Tigres eram uma verdadeira família que repartia entre si alegrias e tristezas.  O sentimento de solidariedade não se fez esperar. Por toda a parte a vontade de congregar esforços na busca do “Bonança”. O Governo Geral de Angola, o Comando Naval, a Força Aérea, a Organização Provincial de Voluntários, e muitos particulares, todos se encontravam vivamente  empenhados nas buscas, através de um sistema organizado e controlado por sistema de comunicação a nível distrital,  centralizado numa das salas do Rádio Clube de Moçâmedes.  Um avião da Força Aérea devidamente equipado para missões do género, ao qual se juntaram dois aviões do Estado pertencentes aos governos de Moçâmedes e da Huila, e ainda dois particulares, avançaram nas buscas no deserto, enquanto traineiras batiam a costa desde a Ponta Albina à zona dos Riscos, a norte da Grande Restinga, e também várias viaturas partiram tentando vencer as areias do deserto,  algumas das quais tiveram que ser mais tarde socorridas.


Pilotos, estudantes e médico, as seis vitimas da queda do "Bonanza"



Recorte de jornal sobre o desastre sobre a queda da avionete "Bonança"


O nevoeiro intenso sempre dificultava  as buscas de quem teimava em se manter naquele deserto temeroso, que ninguém podia de ânimo leve pensar vencer,  até porque os rodados da ida logo se apagavam quando do regresso. Na Baía dos Tigres nada havia, não havia mecânicos, não havia peças sobressalentes,  gasolina, sombra, água, alimentos. Terra do nada como diziam os Hotentotes, onde tudo podia acontecer aos incautos, incluso mordedura de escorpiões venenosos.  As irregularidades do terreno, as tempestades de areia  que fustigam o rosto, e ferem o olhar, o vento Leste, as temperaturas difíceis de suportar,  modificam a paisagem e não permitem o caminhar de pessoas e viaturas, tornado a missão impossível  até ao guia mais experiente. As grandes diferenças térmicas dia/noite, durante o dia temperaturas escaldantes pela noite, abaixo de zero.

Jose Venâncio Delgado Jr. foi um dos alexandrenses que colaboraram nas buscas


O "Bonança" tinha que aparecer! Foi então que na tardinha do dia seguinte, os tripulantes de uma traineira que  participava nas buscas, vislumbraram ao longe um brilho de metal, na Zona de Riscos, na encosta de uma duna de grande altura. Dado o alarme os aviões facilmente localizaram o “Bonança”, cujas asas e cauda se encontravam intactas, porém  com a carlinga e os seis tripulantes completamente carbonizados. Os depósitos de combustível copulados à cabine e não nas asas, não permitiu quaisquer possibilidades de salvação. Ali encontraram a morte o piloto Carlos Alberto Teixeira, aos 28 anos de idade, o médico e delegado de saúde de Porto Alexandre, José Marques dos Carvalhos,  aos 31 anos,  e as jovens estudantes Carla Maria Marreiros Martins, Teresa Margarido, Conceição Maria Gonçalves de Carvalho, e Laurinda dos Santos Nascimento, de 14,16, 12 e 14 anos,  respectivamente.  Pensa-se que o piloto tentara a perfuração de norte para sul à entrada  da Baía que tem 11 milhas de largura, e que fez um desvio ligeiro lateral que o levaria a bater na encosta de uma das dunas sobranceira ao mar,  que naquele local atinge 180 metros de altura. O piloto Teixeira era muito estimado pela gentes dos Tigres.  Era ele que lhes fazia chegar médico e o  padre, tão necessários à manutenção da saúde e  ao conforto espiritual de que a população carecia. Também o medicamento, e algum alimento a complementar o que vinha juntamente com a água, em navios destinados a tal, era ele que lhes levava, todos os artigos indispensáveis vida, os jornais a correspondência para poderem estar a par de notícias sobre o que ia acontecendo longe dali,  etc. etc.
O médico José Marques era também muito estimado pelos cuidados de saúde que dispensava à população.

O desespero das famílias foi tal que o pai de Teresa Margarido, tresloucado pelo sofrimento, partiu para o Deserto, a pé, munido de um garrafão de água, em busca da sua menina. Era a única pessoa de família que ele tinha por companhia nas quatro paredes do lar, naquela aldeia onde a solidão era esmagadora . Teresa era a luz de seus olhos, era o ser que restava de um casamento menos feliz. Oito angolanos pertencentes ao pessoal da traineira fizeram questão de o acompanhar. Caminharam pelo Deserto fora durante 36 horas, na busca do “Bonança”, até que perdidos e dispersos entre altas e escaldantes dunas, com os pés em sangue, e já sem água nem alimentos, foram localizados pelo avião militar que  lhes lançou uma mensagem comunicando que os tinham localizado, em cima da zona de Riscos, na direcção do farol da Ilha dos Tigres, e que iam avisar “jeeps” de Porto Alexandre para os ir buscar. Pediram-lhes ainda que se aproximassem mais da praia, da qual se encontravam afastados. Hilário Margarido já não teve forças para sair do local onde tombou, já entre a vida e a morte. Foi recolhido por uma equipa de jornalismo da revista Noticia de Luanda, que cobriu a reportagem no Deserto, sendo os restantes companheiros recolhidos por outras viaturas, excepto dois deles que caminharam na direcção do farol da  Ponta Albina.

Ai de quem ousasse transpôr as areias deste Deserto, a região mais inóspita do mundo. Acabavam por morrer de sede, fome, cansaço, para festim dos abutres que, suspensos no ar, com suas asas abertas e o bico adunco, aguardavam pacientemente o último suspiro da vítima. Ninguém que se aventurasse mais a sul, na direcção da Costa dos Esqueletos, conseguia escapar.

Não tenho muito a avançar sobre a Empresa de avionetes que disponibilizou o malfadado "Bonança", que acabou no dia 17 de Junho de 1967, de maneira tão trágica. Tenho informações que gostaria de ver confirmadas de que pertencia a Fernando Rodrigues Ferreira,  pessoa de iniciativa e valor, estimada em Moçâmedes, que tinha como sócio  um Sr. de nome  Martins, creio que era mecânico de aviação. Fernando Rodrigues Ferreira tinha começado como camionista e trabalhava para Maurício Brazão que tinha uma loja junto da Praça de Táxis, a Praça Gomes Leal, em local próximo da Farmácia Moderna e da Drogaria de Augusto Lopes Rosa. Depois de ter adquirido o brevet ambos  entusiasmaram-se, resolveram trabalhar de conta própria, criaram a sua empresa, que segundo informações se desenvolveu e expandiu para Luanda, introduzindo a aviação particular  regional em Angola, o que muito ajudou, pela fluidez das ligações, a aproximação  entre os povos, e o desenvolvimento das regiões de  difícil acesso. 






Naquele Deserto inóspito, isolados da civilização, era a fé que lhes dava ânimo, força e conformação às gentes da Baía dos Tigres. A fé era o lenitivo que as ajudava a vencer a dureza da vida...



Ficam estas tristes recordações.

MariaNJardim

  
 Para saber mais sobre a Baia dos Tigres, visite outras páginas deste blog:
1. A origem do nome: http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2014/09/baia-dos-tigres-origem-do-nome.html

Baía dos Tigres e a origem do nome

HIENA CASTANHA encontradas em todo o sul da África, e particularmente em Angola, Namíbia, África do Sul, Botswana, Lesotho, Moçambique, Malawi, Suazilândia e Zimbabwe. 

DUNAS DOS TIGRES


DUNAS DOS TIGRES



Três versões existem  sobre a origem do nome da “Baia dos Tigres”. Uma delas está relacionada com a coloração "tigrada" que as altas dunas do lado continental da baía apresentam quando vistas à distância, a partir do mar. É a versão defendida por André Guilcher, Carlos Alberto Medeiros, José Esteves de Matos e José Tomás de Oliveira, em “Les Restingas (Flèches Littorales) d’Angola, spécialement Celles du Sud et du Centre” Finisterra, vol. IX, nº 18, Lisboa 1976, pp. 171-211.  Segundo os defensores desta versão, a areia das dunas que são geralmente claras, possui minerais pesados em abundância  --granada, a, magnetite, ilmenite, zircão, anfibólio, turmalina verde—metais que o vento concentra em grandes faixas nas partes baixas das mesmas dunas, e que vistas do mar, ao ganharem o aspecto riscado avermelhado, fazem lembrar a pele de tigres. Como se sabe, na Baía dos Tigres não há tigres.

A 2ª  versão é a de que o nome Baía dos Tigres está relacionado com o ruido causado pela fricção que o vento sul exerce quando sopra com violência sobre a areia no alto das dunas, ruido que fez levantar a crença de que ali houvesse tigres. Esta versão é defendida por J.Pereira do Nascimento no seu livro Exploração Geográphica e Mineralogica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895.

A 2ª versão deve-se a notícias da existência na Baía dos Tigres  de cães de grande porte que faziam lembrar tigres, quando lá chegaram os primeiros portugueses. Henrique Abranches escrevia no seu livro Senhores do Areal, sobre esses cães em relação aos quais se contavam versões diversas, uma delas referia  que no século XVIII um navio não identificado tinha naufragado ao largo dos Tigres, e os cães que vinham a bordo, únicos sobreviventes, nadaram rumo à  costa, fixando-se naquela região desértica paupérrima e, sem água, tiveram que se adaptar comendo o peixe morto que vinha dar à praia, ou caçando raposas, aves marinhas utilizando técnicas de guerrilha, que lhes permitiam capturar.  Uma outra versão contava que em tempos recuados instalara-se em Moçâmedes uma epidemia de raiva e que a Administração ordenara a morte de todos os cães, mas algumas pessoas, apiedadas meteram-nos a bordo de uma barcaça e rumaram para o Sul para os depositar em qualquer praia, bem longe, mas em vida.  Deixam-nos na Baía dos Tigres onde não havia água doce, e esses animais depressa aprenderam que a espuma das ondas que molhavam o areal não era salgada, e nos longos marasmos do vento, lambiam a superfície da água inerte com um espelho, que também não tinha sal. Nesse ambiente cruel, aprenderam a viver e multiplicaram-se, tornando-se eles próprios tão cruéis como o meio.

Muito recentemente o nosso conterrâneo Aurélio Baptista,  como conhecedor da região, avançou uma 3ª versão que nos parece digna de ser apreciada e levada em consideração. Baseia-se na leitura e na interpretação  que fez do depoimento do explorador inglês Willian T Messum  que referencia deste modo a presença de hyenas de que a Baía dos Tigres seria   infestada : “Aqui accendemos lume e nos preparamos para ficar a noite, mas tivemos sempre sentinela, porque, nas minhas viagens, nem antes nem depois, eu nunca senti tão espantosas vozes de hyenas ou lobos, e toda a noite em roda de nós; que só se dispersaram exactamente quando o dia estava para romper”.  Refere Aurélio: Ora, para um leigo, estas palavras teriam passado despercebidas, mas não passaram a Aurélio Baptista, conhecedor da região, logo se lembrou das hienas que por ali habitam, ou seja da “hiena castanha”  cujo  habitat se resume ao deserto do Namibe e Kalahari. Trata-se de um animal que pode atingir 1,40mts de comprido, 90cm de altura e pesando até 60kgs, que possui uma pelagem tigrada, e, por tal, poderiam ser tomados por tigres pelos exploradores e marinheiros do séc. XVII e XVIII,  nessa época de informação escassa. Este o ponto de vista de Aurélio Baptista :  foram estes animais , as hienas castanhas, que originaram a denominação de Baía dos Tigres à Enseada das Areias/Grande Baia dos PeixesAinda relacionado com hienas.

Alexandre Magno de Castilho, que passou pela Baia dos Tigres em 1867, referiu: “Só vimos muitos quadrupedes parecidos com rapozas muito grandes…  

 

Sobre "hienas castanhas" : Habitat e distribuição

Hienas-castanhas podem viver em áreas onde o índice de chuva não seja maior que 100 mm por ano. Além de sobreviverem com pequenas quantidades de água, elas também conseguem um pouco de líquido das carcaças e das frutas que comem. Um dos alimentos principais das hienas em áreas semi-áridas são os vários tipos de melão, que suplementam a necessidade de água do animal. Sua predileção por melões às vezes as leva a conflitos com fazendeiros, que às vezes matam hienas-castanhas apesar de serem protegidas em alguns países. As hienas-castanhas são encontradas em todo o sul da África, e particularmente na Angola, Namíbia, África do Sul, Botswana, Lesotho, Moçambique, Malawi, Suazilândia e Zimbabwe.

Retirado daqui